sábado, 16 de maio de 2009

Escrevendo o Futuro


Eu tinha a ultima página do meu caderno reservada só pra desvendar meu futuro. Usava para fazer aquelas brincadeirinhas que achamos suuuuuper reveladoras em que o seu futuro é decidido por uma contagem hora progressiva, hora regressiva em que uma caneta parando no lugar errado acaba, na hora, com metade dos seu sonhos.
Tais brincadeiras eram sempre motivo de atração das amigas que ficavam querendo adivinhar os nomes dos pretendentes que teriam a honra de ocupar as três linhas reservadas para "com quem você quer se casar". Os nomes eram sempre os mesmos, os daqueles meninos da sala que você fingia nem olhar, mas que ocupavam um lugar de honra na sua inocente brincadeira com fins bastante sérios. Afinal, estavamos falando do nosso casamento, né? não é qualquer bobagem!

Depois da constrangedora e delicada missão de escolher seus pretendentes, as meninas escolhiam onde iriam morar. Ah, essa parte era fácil. Paris, São Paulo e é claro, nossa cidadezinha do coração, da qual não queriamos sair mesmo. Ficar longe da mamãe do papai? não dá! Fazíamos a escolha das cidades em meio a uma discussão que se gerava entre as amigas, umas achando essa cidade chata, aquelas achando sem graça, enfim, querendo ou não você mudava o nome da cidade em que você iria morar, pelo menos uma vez. Porque não dá pra escolher uma cidade pra morar o resto da vida, sem que suas amigas aprovem, não é?

Logo em seguida, a aprendiz de cigana/Mãe Diná escrevia no papel o numero de filhos que você iria ter. Os numeros variavam de 1 a 5. Você olhava para aqueles numeros torcendo para não cair no 4 ou no 5, nenhuma de nós queria ter mais filhos que nossas próprias mães. Nós eramos crianças e justamente por isso imaginávamos como seria lidar com mais três ou quatro clones de nós mesmas, ou com mais dois clones do Léo lá da sala. Não dá!
Em seguida a futura cartomante colocava no topo da página como seria a sua conta bancaria. ela escrevia milionário, nossos olhos brilhavam; rico, riamos e dizíamos que iriamos nos casar com um homem rico e que juntando tudo não ia ter problemas; pobre, uma certa preocupação pairava no ar, e se não casássemos com um rico? e se eu for mal-sucedida em medicina?não queríamos ser pobres!; miseravel, era um momento delicado naquela brincadeira de realidade, e se eu fosse uma miseravel mesmo? e se aquilo fosse um sinal? momentos de tensão.

Por fim, a Filha Diná nos perguntava a idade que queriamos nos casar. por volta dos 26, 28 anos, não muito cedo, porque o primo do meu tio já tá com 26 e diz que só que se casar bem mais tarde, e nem muito cedo, porque a amiga da minha prima engravidou aos 23 e crucificaram a garota tadinha, dizendo que ela já ia casar e perder metade da vida.

A tarologa mirim começa os trabalhos, conta em voz baixa, passa a caneta de um lado pro outro, risca uma coisinha aqui, outra ali, e você vê seu futuro se desenhando na ultima página do seu caderno. Ela risca Paris da sua lista, você fica triste, sua "amiga" diz: eu sabia que você não ia morar lá mesmo. raiva! A outra conta e reconta, conta de frente pra trás e de trás pra frente, risca uma coisinha aqui e outra li. Algumas vezes você se sente aliviada, afinal já riscou o "miserável", o "pobre" e os seus cinco futuros filhos são abortados antes mesmo de serem concebidos.
Eis que a primeira revelação é feita, a premonitora, em um tom de voz peculiar diz: sinto muito, mas você não vai casar com o Paulinho. Começam os risinhos, as conversinhas, e você, arrasada com a noticia diz: dãã, eu nem queria mesmo, só coloquei o nome dele por colocar. Mentira! mentira pura! você está gritando por dentro, droga! mil vezes droga!

Bom, como sempre otimista e nunca querendo ficar por baixo, olhava sorridente para São Paulo e para minha futura conta bancária com esperança.

Mais umas voltinhas com a caneta e está decretado! vou ter dois filhos. Ufa! na hora nós começamos a discutir o sexo e os nomes, eu é claro, quero ter um casal. Minha amiga queria ter duas meninas, eu não, tenho uma irmã mais nova e sabia o quanto isso é chato! Se ela tivesse uma irmãzinha ela não desejaria esse mal para seus filhos, tadinhos.
Com um ar mistério, a astróloga juvenil diz que eu serei rica. Bom, muito bom. Meus problemas com a mamãe no shopping chegarão ao fim. E junto com essa noticia boa, chega uma tão boa quanto essa, eu morarei em São Paulo. Uma cidade agitada, que nunca para, assim que nem eu.
E como sempre, o gran finale! Eis que surge no meio de tantos riscos e rabiscos, idas e vindas da caneta, o nome dele, o nome do meu futuro marido. É, sobrou só o Rafa. Risada geral. Da minha lista ele era o ultimo, aquele que eu não queria, aquele que eu coloquei só por que a Tatá disse que ele era afim de mim, e que ela queria que eu gostasse dele. Afe!

Duas ou três garotas que assistiam ao espetáculo do meu futuro, saíram correndo pra avisar pro Rafa que eu ia casar com ele. Gritei para que elas não fossem, mas eu sabia que era inútil, e que mais tarde minha vida futura já estaria na boca do povo.

O show terminou, minha ansiedade cessou, meu destino já havia sido traçado. Só restava eu me conformar, e olhar de cinco em cinco minutos para minha vida futura bem ali, na ultima página do meu caderno.


2 comentários:

  1. Arrasou Luísa!
    Muito engraçado.
    Conseguiste prender minha atenção, pq eu nunca consigo ler um post tão grande!
    dhasduhaduisa
    ;*

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  2. Thais Beltrão Lopes19 de maio de 2009 às 08:00

    Ai amiga,eu bem me lembro dessas nossas brincadeiras...
    eram tão legais:D
    Sempre dando uma de mãe diná,e a tristeza batia msmo se a caneta não parasse no lugar onde queríamos.E sabe o q a gente fazia?faziamos de novo a brincadeira,só pra ver se daquela vez o nosso destino seria diferente!
    saudade desse tempo=/
    Mais uma vez amei o teu post!
    te amo amiga(l)

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